Mulher patrimônio do Mundo
Mulher, Patrimônio do Mundo
Por Helder Ibiapina
desembargador do TJCE
O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking mundial de feminicídios, conforme dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Essa assustadora (e vergonhosa) posição não teria sido alcançada não fosse o exacerbado número de assassinatos cometidos contra as mulheres.
Somente em 2025 foram mortas 1.568 (mil, quinhentas e sessenta e oito) mulheres no país, representando um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior, fato que não pode (e nem deve) passar despercebido pela sociedade. E não estou nem falando de outras formas de violência contra a mulher, no âmbito familiar e doméstico, que podem lhe causar profundo abalo emocional e psíquico, no mais das vezes irreparável.
Não sou especialista em comportamento humano. O estudo do comportamento e da mente humana são da competência de psicanalistas. A abordagem que faço do tema é de um filho cuja mãe ensinou que em mulher não se bate nem com uma flor.
Verdade que só fui compreender a extensão e a densidade da orientação materna quando me tornei adulto. Com efeito, aprendi que quanto mais esmago uma flor, mais inundo o ar de perfume. Aprendi, portanto, que, ainda que tenha o objetivo de tornar mais graciosa a mulher, fustigando-a com uma flor, não me é aconselhado fazê-lo. O corpo da mulher (mais do que o do homem) é abençoado e fecundo, perfeito em todos os sentidos. Não desconheço que Deus criou o homem e a mulher. Porém, concedeu às mulheres o maior dos poderes, o poder da concepção. É dela o milagre da vida.
Certo que o homem contribui. Porém, sua contribuição é mínima. Limita-se a um jato de sêmen. Evidente que não vou aqui, neste limitado espaço, em poucas linhas, dizer o que penso dos homens que agridem ou, mais grave ainda, que matam as mulheres, tampouco dizer meu posicionamento a respeito. A instância competente para conhecer e julgar os homens que lesionam (ou matam) as mulheres é o judiciário. Contudo, é do mal que causa o agressor à mulher (e à sociedade) que me disponho a falar.
Engana-se o homem que pensa que a mulher faz parte do conjunto dos seus bens. Não faz. Mulheres são patrimônio do mundo e do mundo são seu maior patrimônio. Não são as mulheres que povoam este planeta? Na minha visão, matar uma mulher é mais do que um crime de feminicídio. É um crime contra a própria humanidade.
A vida das mulheres (assim como a de qualquer ser humano), não tem preço. Mas tem peso e valor inestimável, sobretudo para a sociedade, para o mundo, eu diria. Seria demais lembrar que a mulher tem direitos, dentre os quais se destaca o respeito à integridade física, sexual, moral, psicológica e patrimonial? Está lá na Constituição da República e na Lei Maria da Penha. Delas devem os homens ter conhecimento e fiel observância. Sem mais demora.
Os agressores devem ter a consciência do estrago que causam quando retiram do convívio social, violentamente, as mulheres.
Como já pontuei linhas atrás, mulheres têm família. São amores de uns e cultuam amores por outros. Mulheres amam e são amadas. O mínimo que se lhe pode garantir, portanto, é o direito à vida.
Reconheço, nada obstante, que a maioria dos homens rende às mulheres a homenagem que elas, efetivamente, merecem, tratando-as com toda a dignidade, respeito e amor. Quanto aos poderes públicos (o TJCE que o diga!) e a iniciativa privada, estes têm se engajado na luta pelo amparo à mulher, vítima de violência. Projetos têm sido elaborados visando a dar suporte não apenas às mulheres, mas também aos homens, notadamente aos filhos, condenados à orfandade.
O fim da violência contra a mulher pode ser um sonho, é verdade. Todavia, quem não sonha neste mundo? E não luta para realizar um sonho? Metade de nós não é feita de sonhos e a outra metade não é feita de lutas, como escreveu Vladimir Maiakovski, filósofo russo? Pois, então!
Dito isto, não me custa acalentar o sonho de que um dia (quem sabe?), quando um homem erguer as mãos para uma mulher, que o faça não para lhe causar temor ou sofrimento, mas, sim, para lhe ofertar flores. Ou, melhor ainda, para aplaudi-la de pé.
Fortaleza, 31 de Março de 2026

